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Entre o fim e o começo: a finitude da vida e a coragem de recomeçar

Todo fim carrega um silêncio. O encerramento de um ano, mais do que uma mudança no calendário, nos confronta com uma verdade inevitável: o tempo passa, e nós passamos com ele. Cada ano que termina é um lembrete discreto da finitude da vida, não como ameaça, mas como convite à lucidez.

O filósofo Martin Heidegger afirmava que o ser humano é um ser-para-a-morte. Longe de um pensamento pessimista, essa consciência da finitude nos chama à autenticidade. Só quem reconhece que o tempo é limitado aprende a viver com mais verdade. O problema não é o fim, mas viver como se ele não existisse.

O Ano Novo surge exatamente nesse espaço entre o que se encerra e o que ainda não sabemos. Ele não apaga dores, não corrige erros automaticamente, mas oferece algo precioso: a possibilidade do recomeço consciente. Recomeçar não é negar o passado, mas reconciliar-se com ele.

Hannah Arendt chamava isso de natalidade: a capacidade humana de iniciar algo novo. Cada nascimento, cada decisão, cada gesto ético é uma ruptura no fluxo automático da história. Mesmo marcados pela finitude, somos seres capazes de começar outra vez.

A finitude nos ensina o valor do agora. Tudo o que adiamos em excesso corre o risco de nunca acontecer. Palavras não ditas, perdões não concedidos, sonhos não tentados, o tempo não devolve. Como lembrava Sêneca, “não é curta a vida, nós é que a tornamos curta quando a desperdiçamos”.

Recomeçar exige coragem. Não aquela coragem grandiosa dos discursos, mas a coragem cotidiana de rever rotas, abandonar o que já não faz sentido e escolher com mais responsabilidade aquilo que merece permanecer. Às vezes, recomeçar é apenas continuar, mas com mais consciência.

O Ano Novo não promete eternidade. Promete oportunidade. O tempo segue sendo finito, mas o sentido que damos a ele não precisa ser raso. A vida não se mede pela quantidade de dias, mas pela profundidade com que habitamos cada um deles.

Entre o fim e o começo, existe um espaço sagrado: o da decisão. Que o novo ano não seja apenas mais um ciclo que passa, mas um tempo vivido com presença, verdade e intenção. Porque, no fim das contas, não controlamos quanto tempo temos, mas somos responsáveis pelo que fazemos com ele.

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